Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo que atuou no Projeto Tucumã a partir de 1982, representava exatamente o tipo de expertise que grandes empresas de engenharia civil não tinham em seu corpo técnico: o conhecimento específico de solo, cultura agrícola e ecossistema local necessário para transformar terra bruta em área produtiva sustentável ao longo do tempo.
O que a engenharia civil sabe fazer muito bem?
Grandes empresas de obras pesadas dominavam, nos anos 1980, a arte de construir infraestrutura em condições adversas: estradas em terreno acidentado, pontes sobre rios caudalosos, aeroportos em regiões remotas, usinas hidrelétricas em áreas de mata fechada. Eram organizações com enorme capacidade operacional, frotas de equipamentos pesados e experiência em projetos de grande escala em qualquer região do país.
O que estava fora de seu repertório técnico era completamente diferente: saber qual cultura se adapta ao solo de várzea amazônica, como planejar o ciclo agrícola em função da sazonalidade do rio, como orientar famílias de agricultores gaúchos a trabalhar em condições tropicais que nada tinham em comum com as que conheciam no Sul do Brasil. Era exatamente esse o conhecimento que Alfredo Moreira Filho havia acumulado ao longo de anos de extensão rural no Amazonas.
O fracasso que revelou a lacuna técnica
O Projeto Milho na ilha da Marchanteria foi a demonstração mais clara dessa lacuna. Uma empresa de engenharia pesada mobilizou tratores D6 e D8, máquinas derrubadoras de árvores, pás-carregadeiras e toda a patrulha mecanizada que funcionava perfeitamente no Centro-Sul do país para desflorestar e plantar milho em solo de várzea às margens do rio Amazonas, com prazo exíguo de dois meses antes da cheia sazonal.
O projeto fracassou. A conclusão foi direta: a agricultura no Amazonas não pode ser feita sob as mesmas tecnologias do Sul do Brasil. A equipe de engenharia tinha toda a competência necessária para abrir a área, mas não tinha o conhecimento agrícola específico para transformá-la em lavoura produtiva dentro das condições reais daquele ecossistema particular.
O que o agrônomo trazia que a engenharia civil não tinha?
Alfredo Moreira Filho, ao ser chamado como consultor para o Projeto Milho, trazia conhecimento que havia acumulado em anos de trabalho técnico no Amazonas: a sazonalidade do rio como variável central de qualquer planejamento agrícola, as condições específicas do solo de aluvião, as culturas adaptadas ao ecossistema local e os limites reais do que a mecanização conseguia fazer em terreno de várzea.
Nenhum desses conhecimentos podia ser adquirido da noite para o dia por uma equipe de engenheiros civis experientes, mas sem qualquer formação ou vivência em agronomia tropical, diferença que separava o que a equipe de obras conseguia planejar do que o território efetivamente permitia que fosse realizado em seus próprios termos.

Por que projetos de colonização necessitavam de equipes mistas?
A história dos projetos de colonização amazônica dos anos 1970 e 1980 mostra repetidamente que os mais bem-sucedidos eram aqueles que combinavam competência de engenharia civil para construir a infraestrutura com competência agrônoma para orientar a produção agrícola que deveria sustentar as comunidades instaladas naquele território.
Projetos que dependiam apenas de engenharia civil para construir estradas e cidades, sem o suporte técnico agrícola necessário para orientar as famílias instaladas sobre o que plantar, como manejar o solo local e como adaptar suas práticas ao ecossistema amazônico, tendiam a criar infraestrutura sem sustentabilidade produtiva de longo prazo, problema que Alfredo Moreira Filho compreendia por dentro desde sua atuação na extensão rural da Acar-Amazonas.
O legado profissional dessa combinação de expertises
A transição da extensão rural na Acar-Amazonas para funções técnicas e de gestão em projetos de colonização como Tucumã exemplifica como a combinação de formação agronômica com experiência em projetos de grande escala criou um perfil profissional raro naquele período histórico específico.
Engenheiros agrônomos com esse tipo de trajetória, que passaram pela extensão rural e depois migraram para projetos de colonização de grande porte, eram o elo entre o conhecimento técnico agrícola local e a capacidade operacional das equipes de obras que executavam fisicamente esses projetos. Alfredo Moreira Filho cumpriu exatamente esse papel nos projetos em que atuou no Amazonas e no Pará, tornando-se o tipo de profissional que projetos de colonização de grande escala efetivamente precisavam para funcionar.

