Abrir um restaurante com um irmão, como fez o empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, ao criar o Hina Restaurante com Milena da Silva, parece resolver o ponto mais delicado de qualquer sociedade: a confiança. O problema é que confiança não substitui regra, e muitas sociedades familiares se desgastam justamente pelo que nunca foi combinado.
O tema não é de nicho. Levantamento do IBGE em parceria com o Sebrae indica que nove em cada dez empresas brasileiras são familiares. Na gastronomia, em que o caixa gira todo dia e as decisões não esperam, a falta de acordo aparece rápido. A seguir, as perguntas que irmãos costumam enfrentar quando decidem empreender juntos.
Cada irmão deve ter uma função diferente?
Sim, e de preferência definida por escrito. Em um restaurante, as frentes são claras: cozinha e cardápio, salão e atendimento, compras e fornecedores, finanças e pessoal. Quando os dois sócios opinam sobre tudo, cada decisão vira uma negociação, e a equipe não sabe a quem obedecer. Outra forma de dividir é pelo horizonte de tempo: um sócio cuida da operação diária, enquanto o outro trata de contratos, bancos e planos de expansão.
A divisão funciona melhor quando acompanha a bagagem de cada um. No caso de Fredy Restrito, a gastronomia chegou depois de anos no comércio de roupas e da criação da marca Restrito, uma formação ligada ao varejo e à gestão de vendas.
O que precisa estar no acordo de sócios?
O acordo deve responder, antes da inauguração, às perguntas que ninguém quer fazer depois. Quanto cada um aporta e em que prazo? Quem recebe pró-labore e quanto? Como os lucros serão distribuídos ou reinvestidos? O que acontece se um dos dois quiser sair, adoecer ou precisar vender sua parte? Essas respostas podem constar no contrato social ou em um acordo de sócios separado, redigido com apoio de um advogado.
Também vale prever como resolver impasses. Uma regra simples, como dar a palavra final a cada sócio em sua própria área, evita que uma divergência sobre o fornecedor de peixe vire uma crise familiar.
Como separar a mesa da família da mesa do restaurante?
Imagine um almoço de domingo em que a conversa escorrega para o custo da mercadoria e a escala da equipe. Quando acontece toda semana, o negócio invade a família, e as tensões do trabalho passam a ocupar o espaço da convivência.
A saída mais comum é criar rituais próprios para a empresa: reunião semanal com pauta, números compartilhados e decisões registradas. Fredy Restrito elucida que com isso, o assunto do restaurante tem hora e lugar, e o encontro de família volta a ser apenas um encontro de família. A mesma lógica vale para o dinheiro, que precisa circular por contas separadas.
O que muda do primeiro restaurante para o segundo?
Quem já abriu uma casa conhece custos que o primeiro plano de negócios costuma subestimar: reforma, licenças, desperdício na cozinha, rotatividade de equipe e meses de faturamento abaixo do previsto. No segundo projeto, essas variáveis entram na conta desde o início. Há ainda o ganho de rede, com fornecedores, contadores e profissionais já testados no primeiro negócio.
Fredy da Silva Gonçalves Bento passou por esse caminho. Antes do Hina Restaurante, empreendeu no setor com o Restaurante Capitães, e a nova casa nasceu já como sociedade familiar, construída ao lado da irmã.
Quando o parentesco vira vantagem
Irmãos que formalizam a sociedade não perdem a confiança que os aproximou. Ganham um instrumento para protegê-la. O contrato, segundo Fredy Restrito, deixa de ser sinal de desconfiança e passa a ser o que permite discordar sobre o cardápio sem colocar a relação em risco.
Nesse formato, a família oferece algo que poucos sócios entre estranhos têm: história comum, valores parecidos e disposição para atravessar meses difíceis. Somadas a regras claras, essas qualidades deixam de ser apenas afeto e se tornam uma vantagem competitiva real.

