O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, com ampla expertise na área e fundador do projeto social Humaniza Sertão, aponta que o cuidado emocional é parte indissociável da saúde do idoso, não um luxo ou um segundo plano.
A saúde mental do idoso é um tema que ainda carrega estigma e incompreensão em muitos contextos. Sintomas de depressão são atribuídos ao “cansaço da vida”. A ansiedade é tratada como fraqueza ou exagero, alterações de comportamento são normalizadas como consequências inevitáveis do envelhecimento. Essa série de equívocos tem um custo alto: milhões de idosos brasileiros vivem com condições de saúde mental não diagnosticadas e não tratadas, o que compromete profundamente sua qualidade de vida e agrava suas condições físicas.
Neste artigo, você vai entender como a saúde mental impacta o envelhecimento, por que ela é tão frequentemente negligenciada e como o cuidado humanizado e multidisciplinar pode transformar essa realidade.
Por que a saúde mental do idoso é frequentemente ignorada?
Existe um conjunto de crenças culturais profundamente enraizadas que contribuem para a negligência da saúde mental do idoso. A mais comum delas é a ideia de que tristeza, apatia e ansiedade são estados naturais e esperados na velhice, e não condições que merecem diagnóstico e tratamento. Essa normalização do sofrimento emocional na terceira idade é, ao mesmo tempo, um reflexo do capacitismo que permeia a visão social sobre o envelhecimento é uma das principais razões pelas quais tantos idosos vivem com depressão e ansiedade não tratadas.
Segundo o doutor Yuri Silva Portela, a depressão no idoso frequentemente se manifesta de formas diferentes das observadas em adultos mais jovens. Em vez da tristeza evidente, o idoso deprimido pode apresentar queixas físicas sem causa orgânica clara, irritabilidade, perda de interesse em atividades, fadiga excessiva e declínio cognitivo. Essas manifestações atípicas dificultam o diagnóstico e contribuem para que a condição passe despercebida em consultas que focam apenas nos aspectos físicos da saúde.
Como a Psicologia integra o cuidado ao idoso no Humaniza Sertão?
A presença de psicólogos voluntários na equipe do Humaniza Sertão é uma das expressões mais concretas do compromisso do projeto com o cuidado integral ao idoso. Yuri Silva Portela elucida que em comunidades do sertão, onde o acesso a serviços de saúde mental é praticamente inexistente, a chegada de um profissional de psicologia representa uma oportunidade única de escuta qualificada para pessoas que raramente tiveram esse recurso disponível.
Nesse sentido, o trabalho dos psicólogos no projeto vai além do atendimento clínico individual. Ele inclui orientações para as famílias sobre como reconhecer sinais de sofrimento emocional no idoso, como comunicar-se de forma mais empática e como criar ambientes domésticos que favoreçam o bem-estar mental. Esse trabalho de educação emocional tem efeitos que se prolongam muito além do dia de ação mensal, transformando a dinâmica de cuidado nas famílias atendidas.
Quais condições de saúde mental são mais comuns na terceira idade?
A terceira idade traz consigo uma série de situações que aumentam a vulnerabilidade emocional do idoso. Perdas acumuladas de pessoas queridas, a aposentadoria e a perda dos papéis sociais a ela associados, o diagnóstico de doenças crônicas e a diminuição da autonomia são fatores que, isolados ou combinados, podem desencadear condições de saúde mental que exigem atenção e tratamento especializado.

A depressão é a condição mais prevalente, afetando uma parcela significativa dos idosos brasileiros e sendo ainda mais frequente entre os que vivem em condições de vulnerabilidade socioeconômica. Yuri Silva Portela explica que o luto patológico, que ocorre quando a perda de um ente querido provoca sofrimento prolongado e incapacitante que não se resolve naturalmente com o tempo, também é comum e frequentemente não recebe o suporte adequado. A ansiedade generalizada, o medo da morte e o sofrimento associado à perda de independência completam o quadro das condições emocionais mais prevalentes nessa faixa etária.
O neuropsicopedagogo e o cuidado cognitivo no projeto
Entre os profissionais do Humaniza Sertão está o neuropsicopedagogo, cuja presença reflete a atenção do projeto às questões cognitivas dos idosos atendidos. O declínio cognitivo é uma das preocupações mais frequentes das famílias de idosos e uma das condições que mais afeta a autonomia e a qualidade de vida na terceira idade. Identificá-lo precocemente, avaliar sua natureza e orientar famílias sobre como lidar com ele são tarefas que exigem formação especializada.
Yuri Silva Portela esclarece que o trabalho do neuropsicopedagogo no contexto do projeto complementa a avaliação geriátrica ao adicionar uma perspectiva focada nos processos de aprendizagem, memória e funcionamento cognitivo. Essa avaliação permite identificar desde dificuldades sutis que podem ser trabalhadas com estimulação cognitiva até sinais de condições mais sérias que precisam de acompanhamento médico especializado. Em ambos os casos, a intervenção precoce faz uma diferença enorme nos resultados.
Saúde mental não é detalhe, é fundamento
O cuidado com a saúde mental do idoso não é um elemento secundário ou opcional do atendimento geriátrico. É um fundamento sem o qual todo o restante do cuidado fica comprometido. Reconhecer e agir a partir dessa consciência é o que diferencia uma medicina que trata doenças de uma medicina que cuida de pessoas.
O doutor Yuri Silva Portela incorpora esse princípio em cada ação que realiza no Humaniza Sertão. Psicólogos, neuropsicopedagogos e todos os profissionais da equipe trabalham com a consciência de que o bem-estar emocional do idoso é parte central de sua missão. Esse compromisso é o que torna o projeto tão transformador para as comunidades que atende.
Se você conhece um idoso que apresenta sinais de sofrimento emocional, não normalize. Busque ajuda especializada. O cuidado com a saúde mental é um ato de amor que pode mudar completamente a experiência do envelhecimento de quem você ama.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

