A edição de 2026 inaugurou uma fase inédita no maior torneio do planeta — e as consequências vão muito além do campo
Quando a FIFA anunciou a expansão da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções, a reação do mundo do futebol foi mista. Havia quem enxergasse na mudança uma democratização necessária do torneio mais assistido do planeta, e quem alertasse para os riscos de diluição do nível técnico e de uma maratona de jogos que esgotaria jogadores e torcedores. Com o torneio em plena disputa nos Estados Unidos, México e Canadá, é possível começar a avaliar o que essa transformação representa na prática, para além das previsões. A primeira constatação é que o formato funciona melhor do que os céticos esperavam. A presença de 48 seleções divididas em 12 grupos de quatro gerou partidas competitivas em chaves que, no modelo anterior, seriam previsíveis. O Haiti, que disputa sua primeira Copa, surpreendeu ao criar situações de perigo contra equipes bem ranqueadas. O formato ampliado também adicionou uma fase inédita: os 16 avos de final, antes das oitavas, criando uma etapa eliminatória extra que aumenta o drama e as chances de zebras.
A Copa de 2026 é também, pela primeira vez na história, um torneio com três países-sede. EUA, México e Canadá dividiram as 16 cidades e 16 estádios que receberão as 104 partidas do torneio, que vai de 11 de junho até 19 de julho, quando a final acontece no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A decisão de distribuir os jogos geograficamente foi pensada para reduzir o desgaste das seleções com viagens longas, mas na prática criou uma logística complexa para torcedores que precisam acompanhar a equipe em diferentes países e fusos horários. O Brasil joga toda a fase de grupos na costa leste dos EUA, o que facilitou a presença da torcida verde-amarela, que viajou em massa especialmente para as partidas em Nova York e Miami.
Impacto econômico e geopolítico do maior show da Terra
A dimensão econômica desta Copa supera qualquer edição anterior. Análises publicadas pela agência vietnamita VTV, com base em projeções de consultoras internacionais, estimam que o torneio deve injetar dezenas de bilhões de dólares nas economias dos três países-sede, com efeitos diretos no turismo, hotelaria, transporte, alimentação e consumo em geral. As cidades-sede americanas, como Nova York, Miami, Los Angeles, Dallas e Houston, registraram aumento expressivo no turismo internacional nas semanas que antecederam os jogos. No México, a Copa coincide com um momento político delicado, mas o impacto econômico positivo do torneio é praticamente incontestável. No Canadá, Vancouver e Toronto vivem uma movimentação turística sem precedentes.
O torneio também tem uma dimensão geopolítica que não pode ser ignorada. A realização da Copa nos Estados Unidos acontece num contexto em que o governo Trump redefiniu relações comerciais com vários países, incluindo o Brasil, com a discussão sobre tarifas de importação no primeiro semestre do ano. A Copa funcionou como uma espécie de janela de relações públicas informal, colocando delegações, torcedores e dirigentes de dezenas de países no mesmo território americano durante semanas. O fato de o presidente da FIFA ter escolhido os EUA como sede central do torneio, com a final no MetLife Stadium, não passou despercebido pelos analistas de relações internacionais. É o futebol exercendo, como já fez outras vezes na história, um papel que vai além do esporte.
O que muda para o futebol brasileiro a partir de agora
Para o Brasil, a Copa de 48 seleções cria oportunidades e desafios simultâneos. Por um lado, o formato ampliado reduz a margem para uma eliminação precoce por um tropeço isolado, já que dois terceiros colocados também avançam. Por outro, o chaveamento mais complexo dificulta projeções sobre qual caminho a Seleção vai percorrer no mata-mata, criando incertezas táticas para a comissão técnica. Carlo Ancelotti, que assumiu o comando da Seleção com experiência de Champions Leagues e títulos europeus, tem sido elogiado por sua capacidade de gerir elencos de alto nível, mas ainda está construindo sua identidade no futebol brasileiro. Jogadores como Vinicius Jr., Matheus Cunha, Bruno Guimarães e Endrick — convocado com 19 anos — representam uma nova geração que combina qualidade técnica com maturidade atlética acima da média.
Fora do campo, a Copa de 2026 está transformando o mercado esportivo nacional. O aumento no consumo de produtos licenciados, a valorização das transmissoras e o crescimento das plataformas digitais de streaming que exibem os jogos mostram que o torneio tem impacto econômico real também dentro do Brasil, mesmo que as partidas aconteçam do outro lado do continente. O engajamento nas redes sociais durante os jogos da Seleção quebrou recordes, e a Copa de 2026 já é apontada como o evento mais consumido digitalmente da história do futebol brasileiro. Para o torcedor que quer entender o presente e o futuro do esporte, esta edição do Mundial é uma aula prática sobre como o futebol se transforma quando escala o alcance e abraça a complexidade do mundo moderno.
Fontes: CNN Brasil | Olympics.com | CongressoEmFoco | VTV/Vietnam.vn
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

