Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, costuma ouvir que fazer jogos no Brasil é hobby de entusiastas.
Contudo, sua resposta vai para um caminho contrário, sendo baseado nos números do próprio setor, que mostram uma indústria bem mais estruturada do que essa imagem sugere.
O mito: games no Brasil são coisa de amador
A ideia é antiga e tem uma origem compreensível: durante muito tempo, o setor foi pequeno e pouco estruturado, e muita gente via a criação de jogos como atividade paralela. Esse quadro mudou. Segundo a 2ª Pesquisa Nacional da Indústria de Games, realizada pela Abragames com a ApexBrasil e citada pelo Canaltech em maio de 2026, o Brasil tem mais de mil estúdios ativos e mais de 13 mil profissionais atuando no setor.
Um levantamento anterior da mesma parceria, citado pelo jornal O Hoje, apontava 1.042 estúdios, contra 1.009 em 2021, e registrava 1.009 jogos lançados em 2022, alta de 12% sobre o ano anterior. O número de profissionais passou de 12.441 para 13.225 no período analisado, um aumento de 6,3%.
Esses dados indicam crescimento gradual, e não explosão. Ainda assim, mostram um setor que se sustenta ao longo dos anos, com equipes que se mantêm e produzem de forma contínua.
Serviço ou IP própria: um equilíbrio recente
Outro dado desfaz a imagem de que os estúdios brasileiros apenas prestam serviço. O presidente da Abragames, Rodrigo Terra, disse ao Canaltech que o mercado está dividido de forma quase igual entre estúdios que desenvolvem propriedade intelectual própria e aqueles que trabalham em projetos externos, em geral coproduções com produtoras internacionais.

Richard Lucas da Silva Miranda avalia que os dois modelos se complementam. O serviço traz receita estável e experiência com grandes produções, enquanto a IP própria cria patrimônio e possibilidade de ganhos maiores, ainda que com mais risco.
E o interesse dos profissionais?
A Pesquisa Game Brasil de 2023, com 14.825 pessoas, mostrou que 58,3% dos jogadores acreditavam que o setor de games no Brasil oferece boas oportunidades de carreira, enquanto 15,5% discordavam e 17,5% eram indiferentes. As áreas de emprego mais citadas foram criação de conteúdo (68,3%), publicação ou marketing (68%), programação (66%), efeitos visuais (65,7%) e arte e animação (65%).
O levantamento é de 2023 e mede percepção, não vagas abertas. Mesmo assim, indica que o público enxerga a indústria como um caminho profissional possível, e não apenas como lazer.
O que ainda falta
A estrutura existe, mas os levantamentos citados não detalham porte, reserva de caixa ou nível de formalização das empresas, e esse é justamente o ponto em que Richard Lucas da Silva Miranda enxerga o maior desafio. Segundo ele, estúdios pequenos com contabilidade improvisada e contratos informais têm mais dificuldade de acessar incentivos, atrair investidores e fechar parcerias internacionais.
O desafio também é geográfico e cultural: quem está longe dos grandes centros de decisão precisa se esforçar mais para ser visto e para aprender como o mercado global funciona, e é nesse ponto que a articulação entre estúdios, associações e programas públicos faz diferença.
Esses obstáculos explicam por que programas de exportação, eventos internacionais e o Marco Legal dos Games são importantes: eles reduzem o custo de aprender e de se conectar ao mercado global.
Um horizonte de ambição
Para especialistas, o Brasil poderia ter, em menos de dez anos, um título com alcance comparável ao de FIFA ou Assassin’s Creed, mais provavelmente um jogo independente do que uma superprodução. A afirmação é uma estimativa, e não uma previsão garantida, mas ilustra a confiança de quem acompanha o setor de perto.
Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, aponta que o desafio do setor deixou de ser provar que existe e passou a ser provar que se sustenta: com gestão financeira, contratos claros, propriedade intelectual protegida e jogos que cheguem ao público externo com qualidade constante.

